sobre ser Jornalista no Brasil, no século 21, parte 2
Não estou obcecado com isso, mas estou acompanhando, preocupado com o futuro dos circuitos de (des)informação no paÃs onde eu vivo. A questão toda é bem balanceada, entre concentrar e desconcertar. Li hoje o argumento do Elias Machado, no Observatório da Imprensa, e suas opiniões me deram a vontade de desenvolver alguns elementos no debate. Espero ser menos entusiasta Web e mais crÃtico nesta parte 2 (o entusiasmo que eu vinha mostrando até agora neste blogue me fazia soar menos sério e menos crÃtico do que eu queria ser. fail). Cito o artigo:
A falta de dignidade para o exercÃcio da profissão levou jornalistas de renome, como Simões Lopes Neto e Lima Barreto, a passarem por várias dificuldades financeiras. Lima Barreto, como antes fizera Machado de Assis, que trabalhou no Ministério de Obras, dependia do emprego de amanuense no Ministério da Guerra, tendo que colaborar ao mesmo tempo com diversas publicações. Simões Lopes Neto, durante uma boa parte da vida de colaborador, sequer recebia salário e, quando morreu, deixou a famÃlia na mais absoluta miséria, sem direito a uma pensão que garantisse o mÃnimo necessário para a sobrevivência da mulher e da filha adotiva. Consagrado como bico, o jornalismo não era considerado uma profissão e o jornalista, conseqüentemente, tampouco era tido como um profissional que deveria ser retribuÃdo por seu trabalho.
Talvez o jornalismo até o século 20 fosse mais uma questão de fazer circular idéias (o abolicionismo ou o nacionalismo, no século 19) do que de sustentabilidade econômica. Renda é urgente, uma vez que esse mesmo jornalismo dependia da riqueza dos seus mantenedores (em geral, homens de riqueza recente, industrial ou comercial). As assinaturas eram menos responsáveis pela sobrevivência do veÃculo do que a riqueza inicial e a força de vontade. Eu estou, claro, romantizando esse passado. A capitalização do jornalismo, sua transformação em bem de consumo, mudou algumas coisas aÃ. Primeiro, a questão passou a ser o lucro. Não bastasse a preocupação com existir (que era algo caro), ainda tinha essa margem a ser retornada aos investidores. Daà veio a promiscuidade da publicidade, que envolve os jornais em compromissos à s vezes escusos: como criticar seu patrocinador, seus atos, o governo? Li, nessa linha, um relatório bem resumido sobre a publicidade do governo ser responsável por manter alguns veÃculos (e puxar o tapete na hora certa). Encrenca.
E o que isso tem a ver com a reserva? Não apenas ela encarece a iniciativa (embora coloque o jornalista em uma posição mais confortável), como também limita o campo (jornalismo) a um espaço profissional: aqueles que publicavam para circular suas idéias agora dependem de uma formação (à qual nem todos tem acesso). Esse modelo de jornalismo terá que ceder ao modelo de mercado. E mesmo que exista Le Monde Diplomatique, mercado de nicho ainda é mercado. Ainda tem uma forma de compromissos econômicos que precedem os ideológicos. Dado que não é possÃvel ser neutro, pelo menos preservássemos a diversidade.
Como qualquer atividade profissional em uma sociedade complexa como a nossa, o jornalismo pressupõe uma formação superior especÃfica. O grau de especialização do conhecimento nas mais diversas áreas de cobertura exige que o profissional do jornalismo tenha uma formação conceitual, técnica e deontológica que possibilite uma compreensão objetiva da realidade. A rigor, o conhecimento cientÃfico existente sobre o jornalismo impede que um leigo possa desempenhar a prática profissional com um mÃnimo de qualidade, como antes acontecia nos tempos da imprensa artesanal e de uma sociedade infinitamente menos complexa.
O que, na lógica do mercado, deveria ser uma competição injusta, torna-se, mediado pela lei, uma competição impossÃvel. No caso da engenharia civil ou da medicina, temos um risco que é fatal. E no caso da informação, por acaso imagina-se que o jornalismo é canal exclusivo? Tratamos aqui, de certa forma, da autoridade que a imprensa expressa em suas notÃcias. Mas o que sustenta este discurso, cercado de compromissos? O que, por si só, não compromete a confiabilidade: blogueiros tem leitores assÃduos que lhes credita a autoria, embora não confie neles 100%. De certa forma, a Web pode servir para desautorizar a imprensa, que nunca esclareceu seus procedimentos de investigação ou seleção.
Estas preocupações estão em aberto, aguardando desenrolar. O esclarecimento a respeito da construção do discurso da imprensa, uma exigência utópica, caminha na direção de compreender sua excelência jornalÃstica. É claro que um autor interessado em uma questão tem condições melhores de tratá-la, por conhecer seus contornos, mas será que necessariamente melhor que um especialista com preocupações de publicizar a questão (e o debate)? E este último, deve ter seu lugar na imprensa cassado até que se prove o contrário (ou seja, que ele se forme em jornalismo)?
This entry was posted on sábado, abril 4th, 2009 at 7:10 pm and is filed under Polêmica. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

