sobre o Preço de um Espaço Público

Este post é resposta ao meu colega midiálogo Gabriel Ishida, que expressou seu desagrado com as limitações de acesso a serviços Web, restringidos na base de pagamento. Ele compara as limitações do Flickr, Rapidshare e Last.fm, diferenciando o limite de acesso dos primeiros (limites de hospedagem, atrasos na interface) da exclusão ao acesso do Last.fm. O Ishida não usou o termo, mas acho que é a isto que ele está sensível: no Rapidshare, não pagantes usam de forma pior mas usam; no Last.fm não pagantes usam um pouquinho e depois estão de fora, não podem curtir mais.

O argumento que eu apresento aqui é que meu colega, assim como uma boa parte do público web, sente a Web 2.0 como um espaço público. É claro que a Web1.0 era de certa forma acessível (lembra dos portais de hospedagem, tipo o hpg?), mas nem se compara com a Web2.0, especialmente considerado o contexto: conexão rápida, interfaces mais avançadas (CSS2/3 e Javascript para browsers modernos), portais lindos (youtube, flickr, last.fm). Existe uma sensação de pertencimento na rede, ajudado pelo esforço convidativo dos serviços: o “invite-only” do Orkut virou o “join now” do Twitter.

Todo espaço público exige manutenção: uma praça, uma rua. Na Internet, existem os custos de conexão e hospedagem e processamento: o Twitter com seus milhões de usuários é caríssimo; o Last.fm, que faz streaming de música, nem se fala; o Youtube só se banca pelo Google. Só que enquanto o espaço público do meatspace é mantido pelo Estado (ou por nós mesmos, indiretamente), a Internet tem sua própria natureza. Porque a construção de uma praça é resolvida coletivamente, ou pelo menos, representativamente (diz nossa democracia). Já uma iniciativa Web é privada, sai do dinheiro do investidor. E se existem iniciativas privadas que são tombadas como públicas, ou pelo menos sustentadas (escolas, pontos de cultura, museus), na Internet esse processo é muito difícil de acontecer, tendo em vista o volume de investimento que as startups de sucesso requerem.

Existe um cenário em que uma iniciativa privada, pessoal, de serviço para rede, pode ser tornado público, isto é, de manutenção coletiva (mas não estatal). É o licenciamento público de um Serviço, liberando seu código fonte e permitindo a colaboração na sua construção e implementação. É claro que envolve seu projeto também: como exemplo, o Identi.ca, a alternativa ao twitter. Trata-se de um serviço de microblogging, com API e aplicativos de suporte, que se baseia em um software chamado Laconica, licenciado sob AGPL. A diferença crucial é que o Laconica foi desenhado para ser implementado em diversos servidores e interoperar. Ou seja, eu posso rodar um servidor Laconica para o Instituto de Artes da Unicamp, arcando com os custos do serviço para umas mil pessoas, ou pouco menos que isso. Outro colega Unicamponês pode arcar com o serviço para o Instituto de Computação, e nós veríamos as atualizações dos colegas em outros servidores. Isso é dividir o custo do serviço. Sem contar que toda melhora no serviço (novas maneiras de lidar com spam, por exemplo) podem ser compartilhados. Sem contar que cada um de nós pode monetizar de forma diferente (eu posso inclusive deixar o Instituto pagar a conta).

Portanto, desenrolando o argumento, existe uma sensação de que a Web2.0 é nosso espaço público por excelência, mas esta sensação é ilusória. Uma hora é preciso pagar as contas, e isso vai repercutir na base de usuários. Acredito que as soluções distribuídas tem melhores condições de se constituir como espaço público, especialmente porque podem se tornar diversificadas. Isto é, ter funções diferentes em implementações diferentes, se associarem a outros serviços (por exemplo, às provedoras) e nichificarem. E se tudo isto parece utópico demais, a Web e o E-mail são dois exemplos de serviços que se construiram assim, até hoje.

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This entry was posted on domingo, abril 5th, 2009 at 12:26 pm and is filed under Polêmica. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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One Response to “sobre o Preço de um Espaço Público”

Gabriel Ishida abril 5th, 2009 at 3:58 pm

Amigo Capi,

Primeiramente, obrigado pela resposta ao meu post. Isso prova uma certa polêmica entre visões sobre o assunto e isso é muito bom para fomentar a discussão.
Bom, antes de tudo, gostaria de deixar aqui a frase que ouvi de Steward Brand, que havia postado no meu Twitter: "Information wants to be free". E isso se aplica ao nosso caso.
A distinção que fiz sobre Rapidshare e Last.fm foi justamente em torno disso. Acho que todos nós, internautas apaixonados, preferimos restringir o acesso a não ter acesso. Mas o mais importante é: que tenha a p… do acesso, mesmo que seja um fiapo de porta. A base do serviço deve ser de acessibilidade para o público em geral, e para quem se submete a pagamento pelo serviço, o acesso fica mais privilegiado.
No meu post, eu não condenei essa prática, de limitar o acesso. O que condenei foi fecha-lo. Isso que me deixa mais abismado. O que não me conformo são certas visões que ainda circulam a Web. Tantos serviços que dão certo por cobrança por abertura de acesso que dão certo (Rapidshare e o Megaupload fazem uns 4 ou 5 anos que existem, eu acho) e tem empresas que ainda insistem nisso. Lógico que tem serviços que não há muitas opções de restrição de acesso, mas nem sempre a questão cai para o acesso, não é?

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