sobre ser Jornalista no Brasil, no século 21

O jornalismo conta com reserva de mercado desde 1969, isto é, só profissionais graduados em jornalismo podem exercer essa função na mídia e imprensa do século 20. Para a ditadura dos anos 70 no Brasil, deve ter sido uma boa esse controle, embora o professor da ECA/USP Eugênio Bucci, em artigo no Estadão, tenha sentido que “ela ajudou a elevar o padrão da profissão no Brasil”. Não quero discutir esta impressão, pois não sou jornalista nem tenho a idade e experiência que o professor tem. Mas principalmente, tenho discernimento para perceber que a qualidade horrível da grande imprensa e grande mídia, desinformativa por interesses, apresentando seu discurso falsamente neutro, não tem nada a ver com a formação.

A discussão da reserva de mercado tocou uma ferida interessante: e o direito de livre expressão e comunicação, como fica? Embora isso tenha doído nos últimos 40 anos, eu vejo a questão como fundamental hoje porque, veja bem, a livre expressão e comunicação está acontecendo a todo gás. Blogs, torrents, observatórios espontâneos (como este blog), compartilhamento, repositórios de mídia, tudo isto invade, deita e rola no campo do que era o jornalismo no século passado. E embora a qualidade do material seja fundamental, a diversidade é muito mais representativa do espaço que este material ocupa na nossa mídia e imprensa do século 21.

Por melhor que seja um profissional, ele se forma abstratamente: um comunicador, em qualquer área que o contratem para comunicar. E por melhor que seja o profissional, ele ainda precisa honrar os interesses e compromissos do veículo para que trabalha. Entenda aqui as reportagens da Globo sobre o fechamento de rádios livres em São Paulo. As reportagens da Veja sobre o presidente da Venezuela. Tudo sob aquela falsa neutralidade que eu citei antes, e que deve fazer parte dos manuais da Folha ou do Estadão, ou parte do que se espera para o Homer Simpson Brasileiro.

A blogosfera, os podcasters, e a mídia pequena deste século não seguem esse manual à risca, principalmente nesse quesito da neutralidade. A neutralidade teve seu papel mercadológico no século passado, quando as poucas emissoras de rádio e tv se colocavam em cima do muro para não espantar seus espectadores menos engajados, ou oposicionistas. Um pouco de esforço e lembraremos do quanto os jornais do século 19 eram tudo menos neutros: polêmicas, guerras, abolicionismo… Quando o Marcelo Trasel blogou sobre o avanço da reserva de mercado sobre os blogs, eu me assustei, mas era claro que não ia rolar. A nova mídia nichifica, se envolve, e reconhecem a influência direta que tem sobre o objeto de sua atenção. Têm até certo orgulho, misturam reportagem com engahamento, investigação com ativismo, e hype com publicidade.

Então, embora profissionais, o modelo de mídia do século passado não pode vencer essa qualidade que vem da diversidade. E isto atinge até os campos mais recentes, como a crítica de games (caso). Infelizmente, o jornalismo se desaprende na prática. Reconheço que a mídia nova vem recheada de porcaria e entropia, mas desconfio das sombras editorias de toda imprensa e mídia grande, mesmo da Carta Capital por quem tenho tanto carinho. Dinheiro é compromisso. As universidades fariam bem em preservar seus veículos laboratórios: pode haver mais espaço para eles no futuro que para os papéis impressos dos jornalzões.

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This entry was posted on terça-feira, março 3rd, 2009 at 4:06 pm and is filed under Polêmica. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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