sobre o MP3, parte1
Terminadas minhas não-anunciadas férias, começo 2009 discutindo pela primeira vez um artigo publicado por um professor meu, do curso de Midialogia da Unicamp. O prof. dr. Eduardo Paiva lida como mp3 e suas potencialidades em um artigo publicado na revista RUA no ano passado. Pirataria, novos modelos para a indústria fonográfica, qualidade do áudio comprimido, indústria cultural são tópicos que experamos destas discussões – são inevitáveis. Revisitá-los é trazer a tona preocupações que ainda são muito novas.
O sucesso da iTunes e a extensa pirataria dos produtos comerciais são insinuados pelo prof. Paiva como uma vitória da Indústria Cultural e do Capitalismo, onde toda inovação não passa de maquiagem sobre um esqueleto tão imutável quanto a motivação de lucro, desde que esta motivação ganhou ascendência sobre a cultura. Esta é uma paráfrase de Adorno, citado pelo professor da Unicamp, que introduz a questão formulando:
Através destas tecnologias, e pela primeira vez na história da música gravada, o artista passa a ter controle sobre todas as etapas que compõem o processo de gravação e distribuição musical, do home studio a rede, em uma perspectiva marxista como a citada por Levy. “Em particular, a evolução contemporânea da informática constitui uma impressionante realização do objetivo marxista da apropriação dos meios de produção pelos próprios produtores†(Levy, 1999:245). Assim sendo, parecia, no final dos anos 90, que todos os sites de download de arquivos estariam carregados de trabalhos alternativos e a margem da indústria fonográfica, rompendo de vez o monopólio dos grandes selos de gravação mundiais. Mas foi isso que realmente aconteceu?
Não, hoje vemos claramente que não. Se o volume de seeds quer dizer algo a respeito do conteúdo das redes p2p, os arquivos comerciais tem maior presença que os demais. A mera existência dos demais, no entanto, quer dizer muito. O site Jamendo hospeda quase 15 mil álbuns, licenciados sob Creative Commons, de possÃvel uso comercial. E talvez antes de afirmar que “a web foi massacrada por trocas de arquivos de fonogramas comerciaisâ€, seria melhor perceber que a Web foi recheada de conteúdo original na forma de comentários, crÃticas, resenhas e recomendações, que ultrapassaram (incluindo) o acervo comercial e trataram de artistas fora de circuito. O mesmo Jamendo (os memobros da comunidade) publicou mais de 85 mil resenhas, o site The Hype Machine agrega discussões de blogs de música, e softwares como o Songbird tornam evidente a presença deste novo circuito, essencial para que o músico amador ou não comercial tenham presença no mercado. E isto é mais importante, a meu ver, do que fazer música pra celular.
A questão do circuito, comercial ou não, merece uma atenção que não cabe nestas minhas 500 palavras. De Theodor Adorno a Pierre Levy, passando por Stuart Hall e McKenzie Wark, é longa a tradição que se preocupa com a relação entre o capitalismo e as representações culturais do homem. O domÃnio concentrado dos meios de representação, que refletia o capital (meio de reprodução material) concentrado, se transforma conforme o computador, e as tecnologias digitais popularizadas depois da revolução do silÃcio se revelam como capital descentralizado. Mas os circuitos do velho esqueleto ainda se manifestam fortemente, nos vetores das mÃdias comerciais, concentrados (ou concentráveis) pelas riquezas que os representam. Na parte 2, quero tratar melhor disto com a ajuda do prof. Wark, para retomar os tópicos levantados pelo artigo da RUA.
This entry was posted on segunda-feira, janeiro 12th, 2009 at 10:59 pm and is filed under Polêmica. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

