sobre a Pornografia
Passeando pela rede, tropecei na Revista Heresia, um blog de comentário cultural do goiano Fernando César. Este gênero, que proponho para classificar boa parte da blogosfera, está para a crÃtica cultural como a cultura pop está para a cultura erudita: a crÃtica cultural, mais eruditizada, invoca os conhecimentos acadêmicos e as tradições filosóficas para expressar-se; o comentário cultural acaba se espelhando nesses conhecimentos e tradições, mas tem uma digestão mais agradável. E se, mesmo com seus compromissos comerciais, a cultura pop nos apresenta obras maravilhosas (exemplos demais para escolher) junto a muito lixo (idem), o mesmo é válido para os comentários culturais. Eu colocaria a Revista Heresia no primeiro time, apesar do design horrÃvel…
A primeira coisa que vi no site foi um comentário sobre uma webcomic do Benett, que levou a uma rápida reflexão sobre odiar música. Gostei, li sua reflexão sobre o risco de gostar de Sandy Junior, e resolvi assinar. E logo no post seguinte, veio o tema para discutir hoje: MILFs. Fernando define melhor que a sigla: MILFs não necessariamente são mães, mas meras balzaquianas, não as modelos envelhecidas, mas mulheres comuns, em vestes ou papéis de donas-de-casa, sem toda aquela maquiagem na imagem. E então toca na ferida:
As páginas de MILF fazem-nos levantar uma hipótese: o normal virou uma perversão. Perversão é uma palavra que, como tantas outras, tem diversos sentidos. Pode significar o uso de um instinto para algo que foge de sua função (ex.: comer pedras). Pode significar a maldade (ex.: “Fulano é perverso, impiedoso…â€). E, em termos sexuais, o “pervertidoâ€, o “taradoâ€, é o que busca o bizarro.
André Bazin, um teórico francês de cinema, reflete sobre a obscenidade em um artigo curtÃssimo chamado “Morte todas as tardesâ€. Ele a enxerga na reprodução daquilo que é essencialmente único, como a morte — o momento que define todos os outros momentos. Me arrisco a elaborar: obscena é reprodução daquilo que é essencial, único e irreversÃvel. Como é obscena a execução do vietcong Nguyá»…n Văn Lém. Como é obsceno o estupro de Alex, no filme Irreversible.
Trato do obsceno, quando falamos de pornografia, porque acredito que a inocência pode ser irreversivelmente violada nas representações de sua perda. A imagem da mulher de revista masculina, com toda sua manipulação e edição, preserva na mente do espectador a imagem das mulheres que, ao contrário daquela, existem. Ao representar pornograficamente as MILFs, sua imagem passa a ser diretamente explorada.
Não quero soar excessivamente moralista. Os assaltos aos tabus são bem-vindos, dado que tratar do desejo é urgente. A exploração comercial dos desejos, no entanto, perverte todo o processo em fórmulas de mercado: repetição, mensuração, apelação. A erotização das formas “normais†ainda aguarda sua representação popular, como nos desejos de Tomás, do livro A Insustentável leveza do Ser, algo que poderia sim vir a ser algo simultaneamente interessante e perigoso — como a história do termo Lolita.
Bazin assistiu, vez após outra, a morte todas as tardes. Eu não parei para respirar em Irreversible. E quando conheci Destricted, Quero meu desejo provocado, não consumido. As representações do desejo servem apenas para apaziguá-lo, e não para realizá-lo. A masturbação comercial me parece mais reacionária que a moralidade.
This entry was posted on sexta-feira, dezembro 19th, 2008 at 11:47 pm and is filed under Polêmica. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.


fmkmkfd janeiro 18th, 2009 at 4:46 pm
A execução do vietcong é obscena e outras cenas também, inclusive de sexo.