sobre a Inclusão Digital

Primeiro, permitam-me uma questão que balizará toda essa conversa: por que os filhos das classes média e alta podem ter acesso ao universo da internet, na privacidade de seus quartos, com banda larga, suporte via telefone e computadores poderosos para fazer um monte de coisas como baixar músicas, mixá-las, distribuí-las, jogar videogames online, conversar com amigos velhos e novos, visitar e interagir com sites às vezes não tão adequados segundo os adultos – que aliás, um dia já viram as mesmas coisas em gibis escondidos dentro dos livros escolares! -, e, os filhos dos pobres, têm que acessar internet em telecentros para serem treinados (com projetos pedagógicos) em word e excel (aliás, softwares proprietários que lhes “escravizarão” para o todo e sempre…)?!

O professor Nelson Pretto, da Faculdade de Educação da UFBA, defende o projeto Tabuleiro Digital, que coordena junto ao Grupo de Pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias, em um email à congregação da FacEd e à reitoria da UFBA, respondendo a outro email que critica o projeto por permitir o acesso de jovens a pornografia e, por ser a internet tão interessante, incentivar os alunos a matarem aulas usando os pcs do tabuleiro. A defesa do professor prossegue indo por outros temas, mas esse parágrafo é maravilhoso. Sintetiza muitos sentimentos meus a respeito da Inclusão Digital.

Primeiro, que não é possível ter intimidade com a máquina com uma hora por dia &mdash quem dera fosse diário… A privacidade não serve só para a masturbação, mas para a criação, para o desenvolvimento de idéias, o aprendizado constante… falei casualmente em outro post que apesar das pesquisas de acesso à internet, são muito poucos os brasileiros que podem ler feeds antes de dormir (ou em qualquer hora do dia). Sem intimidade com a máquina, não podem customizá-la, tornando o seu OS (o Linux, de preferência), mais amigável e prático, ou o browser (Firefox) ainda mais eficiente e poderoso. Espero que isto não seja entendido como mesquinharia: quando um projeto de Inclusão Digital passa a ser absorvido pela comunidade, o acesso aos espaços e às máquinas se tornam orgânicos, e passam a ser mais usados, mantidos e desenvolvidos localmente. O resultado é que os “incluídos” mais envolvidos ganham a intimidade necessária para criar o que quiserem — inclusão de verdade. Quem acha que fazer um blog é trivial, já começa com horas de web, alfabetização, bagagem cultural prévia…

Segundo que a inclusão digital deveria ser mais do que a conquista de novos consumidores pro mercado de bens e serviços digitais, mas acaba sempre caindo nesse foco limitado. Algumas iniciativas pecam ao ensinar contaminado: ensinar Windows+Word, ensinar email do GMail/Hotmail/Yahoo, serviços da web 2.0 (Twitter, Orkut, Youtube…); mas outras iniciativas vão mais longe, como mostra a iniciativa do Governador José Serra e do presidente da Microsoft, Steve Ballmer, de dar emails e treinamento aos estudantes de Escola Pública em São Paulo. Nessa linha, só falta uma empresa de TI dar “estágios não-remunerados”, para “excluídos digitais”, pois, como diz o Ballmer, “a TI é fator-chave para melhorar a educação desses jovens para que eles possam sair da escola mais preparados para enfrentar o mercado de trabalho”. Sem brincadeiras, estamos chegando perto do trabalho grátis: gerar valor, com a contrapartida do consumo dependente.

E tudo isso passa despercebido. Porque Linux, Firefox, Hackerismos, Programação, enfim, são coisas “não normais”. O normal é ligar seu pc, abrir o browser e usar os serviços mais simples (email, página do cinema, algumas lojas online). Sub-entendido na frase anterior estão o PC x86, o Windows XP, o Internet Explorer, o webmail dos grandes, os grandes cinemas, as grandes lojas… O diferente continua sendo estranho demais, a ponto de proibirem jovens de discutirem OS e distribuirem seus favoritos. Proíbem até de contar histórias inventadas dos seus personagens favoritos, tanto no Brasil, quanto mundo afora. O mundo é assim mesmo, olha a experiência ruim que o professor Pretto tem que agüentar:

Não resisto lembrar de uma aula de Polemicas Contemporâneas (que também já deu muita polemica!) sobre homossexualidade, na qual umas três alunas foram embora indignadas com a discussão e…chamaram os maridos!!!

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This entry was posted on sexta-feira, dezembro 26th, 2008 at 10:10 pm and is filed under Polêmica. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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